Raul Zibéchi: América Latina - Laboratório de lo nuevo

Por que América Latina é um laboratório do novo? É porque temos duas experiências históricas valiosíssimas. A dos índios, que tem sido a experiência não capitalista mais importante dos últimos tempos e lentamente se está incorporando o mundo negro. No Brasil há um grupo que nasceu na Bahia, mas que já está no Brasil, que se chama "reaja". “Reaja ou será morto, reaja ou será morta!” Essa é uma campanha feita por Hamilton Borges e Beatriz, a Dra. Beatriz, que são, para mim Hamilton é uma maravilha, você o conhece? É uma maravilha! A clareza política que eles têm, inspirados nas tradições quilombolas, em Fanon e nas panteras pretas, as black panters, existe aí uma força muito importante para o movimento negro, que tem outras características que o movimento indígena, porque no movimento indígena viveu a opressão, mas não a escravidão. A escravidão é uma experiência tremenda que é muito mal administrada pelos estados e governos progressistas. Aqui no Uruguai, por exemplo, imagino que no mundo todo acontece o mesmo. Diz-se que o racismo deve ser superado. Em vez de preto, temos que dizer afro - politicamente correto. A linguagem é fundamental, certo? Mas não se reconhece que exista um racismo estrutural. No Uruguai, de acordo com o censo há 10% de afros, afro-descendentes. Entre os juízes e magistrados da justiça existem 0% de negros. Entre os médicos que se formaram na faculdade de medicina, existe um 1%, quando muito. Entre as empregadas domésticas, há 70% de afros. Ou seja, estão sub-representados no parlamento, nos ministérios, nas profissões mais “de ponta” e sobre-representados na construção, nas prisões e no emprego doméstico. Então, há um racismo estrutural que não é resolvido em se dizer afro em vez de preto. Eu acredito que aqui é importante resgatar o pensamento de Fanon, que no Rio e no Brasil é o pensamento que cai perfeitamente para entender a realidade, onde diz:" Neste mundo há dois mundos, a zona do humano, a zona do ser, onde os direitos são respeitados, onde a vida tem um valor, onde a violência é aplicada excepcionalmente, e a área do não-humano, a favela, etc., onde a violência é o cotidiano, onde a vida no vale nada, onde há uma repressão, uma criminalização pela cor da pele, etc. Mas, além disso, o pensamento crítico, o marxismo, o anarquismo... surgiram na área de ser! E são aplicáveis ​​às zonas de não ser? Bem, há que se discutir o que serve e o que não, mas não há que se discutir na academia , isso tem que discutir "ocupar o alemão", "reaja ou será morto", eles são os que têm que discutir e ver quais são suas fontes teóricas e qual é a lógica emancipatória que eles têm, que podem ter pontos de contato com Marx, com Bakun, com quem seja, ou não! E temos 50 anos dessa polêmica. Ela começou com Aimé Césaire, um Martiniquês, que morava na França quando deixou o partido comunista no ano 56 e diz: "o seu universalismo não funciona para nós, para nada!". Devemos construir outro universalismo: Liberté, égalité, fraternité - como dizem os povos indígenas amazônicos do Peru: “A quem devemos ser iguais e por que?” A igualdade! A igualdade da lei, mas a igualdade da lei em um julgamento no vale nada se você é preto ou índio - você já era! Então, a quem devemos ser iguais e por quê? A igualdade é que todos nos pareçamos com os europeus, verdade? Brancos, que falemos bem, tudo isso. Então, o pensamento emancipatório, o pensamento crítico, a rede e a prática revolucionária, há que refundar-la.

No Uruguai, na Argentina, no Brasil não se pensa que os aliados são os negros de casabó. Isso é muito bom para o Candombé, para o tambor, que é folclore. O que fazemos é folclorizar o Candombé no Uruguai, a música negra. Mas o que é necessário é colocá-lo no centro do pensamento emancipatório, das práticas emancipatórias. Disto estamos muito longe!